Friday, 28 June 2013

De Viagens e Religiões

De Viagens e Religiões
(originalmente publicado em 29/05/2010)

Um grupo de indivíduos em Nova York deseja vir ao Brasil; eles possuem diversas formas de fazê-lo: podem optar por vir de avião, navio, de carro, ônibus, moto, bicicleta, cavalo ou mesmo a pé. Mesmo dentro de uma dessas opções, o itinerário a seguir também pode variar: com ou sem escalas, por esta ou aquela estrada, esta ou aquela companhia, nesta ou naquela velocidade… Existem várias formas de se viajar de Nova York ao Brasil. O que conta, no fim das contas, é chegar ao destino – e o mesmo ocorre com as religiões.



Tome como exemplo quaisquer duas religiões: ainda que haja uma miríade de divergências fundamentais entre uma e outra – por exemplo, uma pode ser monoteísta e a outra politeísta; uma pode crer na continuidade da vida pós-morte enquanto a outra não, e assim por diante – ainda que essas diferenças sejam latentes e impossíveis de ignorar, há ao menos um elemento comum a todas as religiões: o fato de que todas elas se dispõem a explicar os mistérios e questões mais profundas da vida e a oferecer conceitos e valores que formem uma estrutura filosófica sobre a qual o seguidor vive sua vida.

Essa é a verdadeira finalidade das religiões – todas elas.

Em sua essência, toda religião é válida – desde que entendida no contexto sócio-cultural em que está inserida. Nenhuma religião ou manifestação espiritual pode ser avaliada sem que se leve em conta a sociedade na qual se desenvolve, os princípios e valores do povo que a pratica, as circunstâncias históricas que moldam seu desenvolvimento.

Práticas que aos nossos olhos soam bizarras, crenças que para nosso juízo parecem incoerentes só sobrevivem em seu ‘hábitat’ natural – o universo sócio-cultural e histórico-geográfico onde se desenvolvem. Evidentemente, a questão fica mais delicada quando uma dada religião é ‘transplantada’ para outro contexto sócio-cultural, outra paisagem histórico-geográfica.

O que se segue, geralmente, é um período de adaptação que traz mudanças em suas práticas e princípios - mudanças que são, literalmente, irresistíveis. É o mecanismo natural de sobrevivência e evolução das religiões - querendo seus seguidores ou não.

É por isso que, para se compreender a fundo uma dada religião – qualquer que seja ela - é preciso compreender, antes de mais nada, sua evolução e história. E quando nos dispomos a isso, nos é dado compreender um fato importante:

Toda religião é válida – até mesmo aquelas que se mostram diametralmente opostas à nossa (seja ela qual for).

Ora, se toda religião é válida, nenhuma pode ser relegada a um segundo plano, nenhuma pode ser rotulada como negativa, nenhuma pode ser atacada – ou assim deveria ser. Nenhuma religião detém o “monopólio da verdade”, nenhuma deveria se entitular o “verdadeiro e único caminho” – porque todas são caminhos: todas as religiões são meio, e não fim.

Evidentemente, existem pontos que podem ser vistos como negativos nesta ou naquela religião – valores socialmente anacrônicos, postura dominante elitista, descompasso com a realidade corrente. Da mesma forma, toda – toda - religião possui seus desvios de conduta: indivíduos que, mais por seu próprio desequilíbrio do que pelos princípios da fé que abraça, agem de forma criminosa: padres pedófilos, pastores estelionatários, auto-entitulados ‘bruxos’ sádicos…

Da mesma forma que nenhuma religião detém o monopólio da virtude, nenhuma é composta só de depravados.

Ao contrário: os depravados das mais diversas categorias é que costumam se abrigar no seio desta ou daquela instituição, muitas vezes valendo-se da cobertura dessa instituição para dar vazão a seus instintos criminosos.

E não é só no universo religioso que esses depravados se instalam: torcidas organizadas, partidos políticos, ONGs… qualquer organização pode – e costuma - atrair esses desequilibrados de plantão às suas fileiras.

Assim, rotular este ou aquele grupo – religioso, político, cultural – como “bom” ou “ruim” é precipitado, injusto e, acima de tudo, imaturo, engendrando sentimentos de conflito entre grupos diferentes, intolerância e fanatismo.

Fanatismo e ignorância andam de mãos dadas

Poucos universos são mais férteis para o desenvolvimento do fanatismo do que o religioso. No mais das vezes, o sectarismo e a intolerância surgem naqueles indivíduos que menos compreendem sua própria religião: diante do diferente, sentem-se ameaçados. E ao sentirem-se ameaçados, atacam com a veemência e a fúria da besta acuada.

Sempre que me deparo com um discurso fanático, identifico com facilidade em sua origem a ignorância – no sentido literal da palavra: ato de ignorar, desconhecer. Nas palavras do irlandês William Butler Yeats, “toda alma vazia tende a opiniões extremas”.

O mais triste é que, cedo ou tarde, essas ‘almas vazias’, tão propensas a opiniões extremas e radicais - tão incapazes de enxergar a si mesmas, e que dizer das almas à sua volta – cedo ou tarde elas acabam por contaminar até mesmo o seio do grupo ao qual dizem pertencer e que, ao defender com tanto ardor, só fazem gerar mais distanciamento, mais isolamento, mais intolerância e incompreensão.

Se o fanático percebesse que sua religião não é ameaçada pela existência de outras religiões, ele não se agarraria aos seus dogmas, crenças e visões com tanta força, não atacaria o diferente. Mas se o fanático percebesse isso, não seria fanático… e fato é que o mundo está cheio de fanáticos.

Curiosamente, o fanático demonstra sua mais visceral intolerância com aqueles que caminham ao seu lado - e que, justamente por compartilharem da mesma crença, à menor divergência de percepção são vistos como ameaças a uma suposta “integridade” da sua religião. Como vimos acima, a evolução e a adaptação são marcas naturais de todas – todas – as religiões. Assim, religião nenhuma possui “integridade” ou “pureza” - salvo na cabeça do fanático, que preza essa falsa “pureza” porque ela é, na verdade, seu escudo, a máscara com que ele oculta a sua ignorância.

Religião e espiritualidade

Por conta dessa intolerância e dos desvios de conduta de alguns indivíduos que crêem falar e agir em nome de sua fé, muitas pessoas desenvolveram repulsa pela palavra ‘religião’, pois para muitos ela pressupõe dogmas, estruturas rígidas e hierarquia. Eis porque, como já dito, ‘nem todos possuem uma religião, mas todos possuem uma espiritualidade’. Grosso modo, espiritualidade é a manifestação pessoal das crenças e princípios de um indivíduo, e idealmente, mas não necessariamente, se alinham com perfeição com alguma corrente religiosa. Eis porque costumo usar as palavras ‘espiritualidade’ e ‘religião’ como sinônimos, diluindo o peso negativo atrelado à palavra ‘religião’ e enaltecendo a força da espiritualidade individual - em última análise, fortalecendo a fusão de ambas.

Disputa e Destino

As disputas entre seguidores de diferentes religiões tendem a ser tão violentas quanto as discussões entre torcedores de times rivais. Porque ambos os lados se esquecem que, sem outros times com quem jogar, o seu time do coração simplesmente não tem razão para existir. Eis o que o fanático faz: cego diante da condição primordial da existência de sua fé, desconfia, despreza e desacata todas as outras que, a seus olhos adoentados, se lhe opõem.

Já as disputas internas entre ‘facções’ de uma mesma religião são ainda mais doentias: é como, estando reunidos no Rio de Janeiro, um grupo de pessoas discutisse intolerantemente acerca de suas escolhas pessoais de transporte: os que vieram de avião louvam a rapidez da viagem, os que vieram de carro enaltecem a liberdade em determinar ritmo e itinerário, os que vieram a pé defendem o exercício físico, os de navio o conforto - e todos têm razão. Mas cegos pela razão, simplesmente se esquecem que todos, no fundo, estão juntos, no destino estabelecido.

Quem de fato compreende a fundo sua religião abre a porta do diálogo com todas as demais. Quem não a compreende vê todos os outros como inimigos.

Que sua viagem seja tão rápida, confortável, saudável e livre quanto você desejar.


Tuesday, 18 June 2013

A Mãe, a Menina, o Torpor e o Chico


A Mãe, a Menina, o Torpor e o Chico

Submetida às constantes oscilações de humor da mãe alcoólatra, a jovem adolescente vive uma vida emocionalmente instável entre o amor quase incondicional que une mãe e filha e a inevitável repulsa pelo indivíduo que, conscientemente, entrega-se à sua própria ruína.

No dia-a-dia, a menina tem de cozinhar para ambas, limpar a casa, agüentar os destemperos e a falta de regras da mãe – apesar de na maior parte do tempo sua vida ser uma provação, os poucos momentos em que a mãe aflora por trás da alcoólatra são compensadores: os afagos, as conversas amistosas e os risos cúmplices de ambas nesses momentos são o fio de esperança que sustenta a filha, que a faz projetar um futuro melhor para ambas, para o mundo delas. Passados esses raros momentos, a mãe mergulha em seu torpor embriagado e a menina volta ao torpor da angústia e do trabalho duro, sempre à espera do próximo lampejo que lhe refaça a energia e restaure a esperança.

O que parece a sinopse de um livro de alguma escritora irlandesa do século XX é, na verdade, uma alegoria. Uma metáfora, uma simplificação de sentimentos que me invadem quando o assunto é o Brasil.

Assim como o clichê do pintinho que toma por mãe a primeira criatura que vê ao sair do ovo, é evidente que amo o Brasil pelo simples fato de aqui ter nascido. Por mais embriagada que seja, esta é minha nação, este é meu país. Esta é minha terra. Muitas vezes, essa ‘pátria amada, mãe gentil’ me embaraça: dói-me o torpor coletivo de nós todos, sua gente – nós todos juntos somos a filha dessa mãe, por vezes tão bêbada. (É óbvio, falo da nação, não da terra.)

Amar alguém que nos destrata não é fácil. O amor de verdade não é algo que simplesmente se descarte, não é algo que se abra mão com leveza: por vir de dentro, lá do fundo, o amor é uma parte de nós. Quando esse amor não é correspondido, o resultado é dor: adoecemos, o pêndulo balança, e o amor se torna raiva. É inevitável imaginar a menina fictícia deitada aos prantos em sua cama após mais uma briga com a mãe, após mais uma desilusão. Em muitos momentos, nossa relação de brasileiros com o Brasil é igual: atiramo-nos chorando sobre nossos travesseiros, amaldiçoando nossa condição, tentando em vão livrarmo-nos desse vínculo; xingamos, diminuímos, ofendemos, esperneamos, negamos... para depois, passada a fúria, voltarmos à consciência de que essa é a nossa natureza: somos filhos dessa mãe e, por isso, a amamos. Nossa aparente raiva é a única defesa desse sentimento que nos faz ser quem somos.

Ontem, como em raríssimos momentos recentes, foi um momento em que senti a mãe carinhosa e otimista por trás da escura nuvem do torpor brasileiro. Os próximos dias dirão se foi um breve lampejo de sobriedade ou um passo rumo a algo novo, diferente, verdadeiramente transformador: se foi um respiro entre dois torpores ou se foi o primeiro passo rumo a uma desintoxicação permanente.

Assim como a menina fictícia do primeiro parágrafo, a dor dos tempos passados me torna um tanto descrente, um tanto cético: temos medo da desilusão, temos medo do trauma de ver mais uma vez a esperança que brota ser atirada à lama.
Por outro lado, é justamente o amor filial que mantém viva essa esperança: como uma brasa, basta uma leve brisa para que a labareda da esperança se erga.



No fundo, eu e a menina do texto – e imagino, muitos outros brasileiros – temos medo do tombo da desilusão de, mais uma vez, alimentarmos o fogo da esperança. Ao mesmo tempo, tudo o que eu, a menina do texto e, imagino, muitos outros brasileiros queremos é justamente uma brisa que nos acalente, que nos traga forças para olhar adiante e esperar: “desta vez, a coisa muda.”

Pode até vir o tombo: por ora, tudo o que eu quero é abraçar e sorrir junto com minha Mãe Brasil. “Amanhã vai ser outro dia”.

© 2013, Claudio Quintino Crow - Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor. Lei Federal 9.610/98. www.claudiocrow.com.br


Thursday, 13 June 2013

Monday, 3 June 2013

Workshop PRESENCIAL Xamanismo Celta: Conceitos e Práticas

PROGRAME-SE: É no próximo domingo!

Workshop
Xamanismo Celta: Conceitos e Práticas

Os relatos míticos da Irlanda Celta são repletos de exemplos de práticas xamânicas, que nos possibilitam realinhar nossas metas e obter aconselhamento para nossas escolhas.
Desenvolvido por Claudio Quintino Crow a partir de treinamento recebido de seu instrutor, o britânico John Matthews, este workshop se destina a todos que se afinizam com a riqueza da ancestral cultura celta e que buscam nela uma estrutura filosófica e prática condizente com as necessidades de nossos dias.

Inscrições antecipadas, somente até 07/06.
femininoessencial@gmail.com